Fonte: http://www.canalibase.org.br/a-atuacao-do-bndes-na-america-latina/

O crescimento das empreiteiras brasileiras na América Latina está longe de ser uma mera questão de crescimento e ?desenvolvimento? da economia brasileira, como normalmente se apresenta a partir de uma perspectiva do tamanho brasileiro na economia latina. O mesmo argumento falacioso pode ser empregado do ponto de vista politico, em que mostra os financiamentos do BNDES na América Latina como um programa político para promoção da construção de um bloco regional, que teria como marco a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Em realidade esses dois pontos (fortalecimento econômico e político brasileiro) devem ser compreendidos como causas de um processo político e econômico e não como os promotores desse processo.

Dessa maneira, o objetivo do estudo intitulado “A atuação internacional do BNDES como parte do modelo Novo Desenvolvimentista” foi mostrar como a brusca expansão da instituição na América Latina está inserida dentro de um novo arranjo político econômico, em que o Brasil se posiciona internacionalmente e nacionalmente dentro de um modelo que tem sido caracterizado como novo-desenvolvimentismo.

A partir da compreensão desse novo arranjo interno e de sua inserção externa pode-se analisar a atuação no exterior do BNDES, sem cair nas falácias que envolvem esse debate, já que normalmente há uma desvinculação das intenções do Estado brasileiro com os detentores das grandes empresas multinacionais brasileiras. O debate não pode ser reduzido a sabermos se as empresas dominaram a máquina estatal, ou se o governo brasileiro adquiriu um status de potência hegemônica. É preciso analisar como essa coligação de interesses se insere nacional e internacionalmente impactando tanto no Brasil como nos países em desenvolvimento que passaram a receber os investimentos financiados pelo BNDES.

A grande maioria dos investimentos brasileiros no exterior financiados pelo BNDES encontram-se centralizados nas obras de infraestrutura, principalmente na construção de estradas, portos, gasodutos e hidrelétricas, o que claramente aponta para uma ligação com a intenção de melhorias no escoamento da produção de insumos básicos. Dentro dessa perspectiva, os investimentos do BNDES podem ser entendidos dentro de uma lógica de expansão do próprio modelo novo-desenvolvimentista brasileiro. Através da construção de um sistema de produção de insumos básicos dentro dos padrões do mercado mundial, torna-se possível conseguir os recursos para financiar a estabilidade comercial e financeira tão almejada pelas doutrinas econômicas. Para o Brasil, essa expansão, em termos econômicos, traria vantagens tanto em relação à criação de vínculos comerciais e produtivos, quanto ao aumento direto da exportação de produtos com maior intensidade tecnológica.

Apesar de os questionamentos levantados no estudo em questão focarem nos aspectos econômicos da expansão do BNDES na América Latina, esse processo deve ser entendido de uma forma mais ampla, dado que estão em jogo principalmente aspectos sociais e ambientais dos países envolvidos. Dessa forma, a intenção é, através dessa análise, abrir o caminho para importantes questionamentos posteriores sobre a soberania dos povos e territórios envolvidos nesse processo de expansão brasileira, o que se refere também a própria capacidade desses estados de buscarem suas vias de desenvolvimento econômico de forma a garantir a autonomia de suas populações.