Relato de Arroyo J. Cláudio (arroyojc@hotmail.com)

Animado e estimulado pela extraordinária reunião do Conselho Gestor do CFES Amazônia, realizada em Belém nestes 20 e 21 de maio corrente, partilho a seguir a reflexão-proposição sobre a idéia da articulação dos CFES enquanto uma “Escola” Nacional de Economia Solidária. Claramente inspirada nas brilhantes contribuições que recebemos na reunião a partir das falas de Armando, Valmor, Rosana, Farid, Marcia, Gercina, Henrique, Sonale, Meire, Monique e Rosevany.

Antes de mais nada, esclareço já que, neste momento, não estamos propondo a criação de qualquer nova estrutura, mas que antes, pensemos na organização de uma nova instituição no seio do movimento social por uma Economia Solidária. Enfatizo que, portanto, nossa idéia de “Escola” não se limita a um mecanismo pedagógico apenas, mas à articulação de um processo de formação de uma nova cultura na perspectiva de uma nova sociedade em suas diversas e múltiplas componentes entre as quais destaco a política e a economia. Nesta perspectiva, se impõe a percepção de que entendemos a construção da “Escola” como estratégia sinérgica a tudo o que construímos até aqui, a partir “de dentro” e “de baixo”.

Também confesso, que as reflexões que seguem, estão fortemente influenciadas pela percepção conjuntural de que estamos vivendo em nosso movimento, uma fase de supervalorização da disputa por espaço no governo, o que tem enfraquecido o esforço de elaborarmos e efetivarmos estratégias autônomas de construção da Economia Solidária como prática livremente adotada por parcelas cada vez maiores da sociedade. De onde, entendo, deve estar a fonte de nossa força política e econômica, inclusive para conquistarmos, na esfera estatal, a importância que queremos merecer. Ou seja, nossa elaboração tenta equalizar os investimentos que devemos fazer nas diversas esferas de construção da hegemonia da Economia Solidária como expressão cultural-sócio-política-econômica, tal como concebido no campo da teoria gramisciana do Estado Ampliado, a que me filio.

Entrando no assunto. Antes de tratarmos de “Escola”, precisamos tratar de “Educação”. Nesta perspectiva, simplificadamente, partimos da concepção de que Educação é um conjunto de processos didático-pedagógicos articulados de maneira racional e estratégica, em múltiplos fazeres sociais, para formar os indivíduos em seus contextos sócio-culturais para prepará-los ao cotidiano de uma Sociedade projetada, na qualidade de sujeitos, para reproduzi-la.

Portanto, Educação é uma ação pensada estrategicamente, política e tecnicamente, com uma intencionalidade desenhada a partir de um determinado Projeto de Sociedade. Projeto de Sociedade que assim passa a ter em um projeto educacional adequado, um dos processos de sua própria construção como fato sócio-histórico, em paralelo a processos culturais como o econômico e o político, principalmente.

De trás pra frente então, metodologicamente podemos dizer que é o Projeto de Sociedade, ou as referências da Sociedade que queremos construir, que informa o perfil de indivíduo que precisa ser formado para realizá-lo socialmente, sustentá-lo, desenvolvê-lo e reproduzi-lo nas futuras gerações – quero dizer que, por exemplo, uma Sociedade Solidária ou Socialista só se efetivará quando o perfil da prática social dos indivíduos for majoritariamente solidária ou socialista.

Por sua vez, este perfil projetado, solidário ou socialista, passa a ser o objetivo de um projeto educacional específico. A distância entre o perfil cultural médio dos indivíduos da Sociedade atual, majoritariamente capitalista, e o perfil desejado ou projetado, precisa ser percorrido por uma estratégia formativa, ou Projeto Pedagógico. Dado o caráter intencionado e estratégico deste processo é que este projeto tem sido designado como Político Pedagógico.

Destaco, enfaticamente, que o primeiro grande esforço coletivo que temos à frente, na perspectiva de elaboração de um Projeto Político Pedagógico – tal como o CFES Amazônia se propõe, é a elevação do grau de elaboração das referências da Sociedade que queremos ter no futuro, a que queremos e estamos construindo, enfim o nosso Projeto de Sociedade, enquanto movimento por uma Economia Solidária, ou seja, a Sociedade Solidária ou Socialista – a debater.

Este esforço, de caráter ideológico, deve obviamente tomar como ponto de partida os Princípios da Economia Solidária, já elaborados pelo esforço coletivo expresso pelo FBES. No entanto, entendemos que já é possível avançar algo mais na especificação dos valores que queremos ver impressos na subjetividade e nas práticas cotidianas dos que se propõem abraçar o Projeto de uma Sociedade Solidária. Com isso, estaríamos trabalhando a composição de um horizonte moral a partir do qual seria possível estabelecer parâmetros éticos claros para a conduta dos indivíduos em seus meios sociais, fazendo do comportamento no dia-a-dia, de cada um de nós, um potente exemplo capaz de propagar e promover novas adesões ao nosso movimento. Precisamos desenvolver já o Código de Ética do movimento por uma Economia Solidária, em parte latente nos Princípios da Ecosol, consenso no FBES.

Um Código de Ética da Economia Solidária, ao mesmo tempo em que desenha o perfil do indivíduo-cidadão/ã-militante necessário à transição da Sociedade Capitalista à Sociedade Solidária, já serviria de primeiro parâmetro pedagógico, como “perfil do egresso” da nossa “Escola”, além de poder servir de cartilha mediadora das relações cotidianas no seio do próprio movimento, não como instrumento de imposição mas de reflexão para livre adoção, ou não, mas expressa e consciente, tanto na dimensão de cada indivíduo quanto na dos coletivos que formamos.

Chegando ao perfil, já teremos andado o bastante para começar a desenvolver estratégias pedagógicas que poderiam, proponho, ser inspiradas pelos 4 saberes, ou pilares da educação, elaborado originalmente pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI da UNESCO, coordenada por Jacques Delors, – cujo relatório foi publicado como livro, “Educação:Um Tesouro a Descobrir”, em 1999 – mas que pode ser adaptado conforme se fizer necessário.

Em síntese, o relatório propõe como pilares da educação o desenvolvimento das faculdades humanas a partir de 4 saberes ou aprendizados: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser.

Saber Conhecer significa: aprender a aprender, fazer com que cada um desenvolva a capacidade de ler o mundo e, com autonomia, interpretá-lo e decidir o que fazer. Uma capacidade fundamental para fazer de todo e qualquer lugar, as 24hs do dia, a verdadeira sala de aula.

Saber Fazer significa: adquirir competências que tornem a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe para resolver os problemas de seu coletivo e sua comunidade. Capaz de encontrar soluções fruto do seu próprio contexto social, produto do desenvolvimento do ensino teórico alternado com o trabalho e demais experiências práticas, mediado pela reflexão.

Saber Conviver significa: aprender a viver juntos, somando mais do que subtraindo, desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências humanas, realizar projetos coletivos, encontrar soluções positivas diante de conflitos, valorizando profundamente, a diversidade, o pluralismo, a compreensão mútua, a compaixão mútua, a solidariedade e a paz.

Saber Ser significa: estar à altura de agir com cada vez maior capacidade de autonomia e responsabilidade, de discernimento e clareza de seus objetivos e finalidades a partir de seus valores subjetivos, desenvolvendo permenentemente a disciplina, o raciocínio crítico, o respeito ao outro/a e à natureza. Desenvolvendo, também permanentemente, a humildade de conhecer e confessar suas próprias limitações pessoais, técnicas e emocionais, para daí desenvolver a aptidão para comunicar-se, partilhar, mediar e construir consensos.

Precisamos enfim de uma “Escola” que desenvolva em nós a capacidade de sermos solidários em toda complexidade e profundidade que isto exige. Entrelaçando estratégias coletivas de comunicação institucional, de atendimento dos “clientes” da Economia Solidária, de sinergia operacional entre os projetos, de desenvolvimento de competências políticas, técnicas e gerenciais, desenvolvendo as competências e as habilidades necessárias ao gigantesco desafio que abraçamos.

Ou seja, precisamos de uma “Escola“ sem paredes que nos reeduque a partir da reflexão e da prática do dia-a-dia, onde reproduzimos os valores que, de fato, acreditamos. Que seja a expressão formal de nosso pacto com o futuro, com a construção de uma Sociedade Solidária, com indivíduos e coletivos capazes de introduzir já, e para um número cada vez maior de pessoas, práticas político-econômicas que acumulem valores, aprendizados, legitimidade e estruturas capazes de fazer da solidariedade o paradigma central de uma Sociedade que se revoluciona.

Bem, se esta provocação prosperar, seria muito interessante escrevermos coletivamente, em rede, nesta rede, os fundamentos da nossa Escola Nacional de Economia Solidária.