Fonte: www.rts.org.br

“Ao falarmos de desenvolvimento local, humano e sustentável, as mulheres são atores fundamentais”

A capacitação de mulheres como protagonistas de uma economia solidária foi temática central de palestra conferida no dia 25/11, durante a 8.ª Expo Brasil Desenvolvimento Local, com foco nas experiências finalistas do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social – 2009. Vindas de Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Afogados da Ingazeira (PE), mulheres de distintas realidades no País expuseram iniciativas que, pelos resultados obtidos e pelo amadurecimento de suas metodologias, tornaram-se tecnologias sociais reaplicáveis em diferentes regiões.

Entre as três experiências apresentadas na 8.ª Expo Brasil, estava a “Rede de Mulheres para a Comercialização Solidária”, desenvolvida pela Casa da Mulher do Nordeste, de Afogados da Ingazeira (PE), vencedora este ano do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, na categoria Participação de Mulheres na Gestão de Tecnologias Sociais. Para o público do evento em São Paulo, a coordenadora dessa iniciativa, Maria Marli Romão, fez um discurso emocionado sobre a importância de se enfatizar o protagonismo feminino numa nova perspectiva econômica.

“Certamente, ao falarmos de um conceito de desenvolvimento local, humano e sustentável, as mulheres são atores fundamentais”, contextualizou. A importância econômica delas, como “reprodutoras da vida” e responsáveis pelo giro de uma economia regional, não é nova. “No entanto, é mais recente o movimento de valorização do papel feminino num modelo que não priorize exclusivamente a geração de riqueza, mas a redução da pobreza”, afirmou Maria, para um público interessado em conhecer mais sobre a dinâmica de tecnologias sociais com foco nas discussões de gênero.

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Contra a invisibilidade

A tecnologia social de Pernambuco, premiada em 2009 pela Fundação Banco do Brasil, surgiu em 2003 para criar novas possibilidades econômicas para mulheres que viviam em comunidades rurais isoladas no chamado sertão de Pajeú. “Invisíveis” economicamente, essas mulheres tinham produção ativa, mas mantida reservada no espaço privado da família, sem expressão social. A Rede Mulheres Produtoras de Pajeú, desde que foi formada, já reuniu cerca de 450 dessas trabalhadoras em dez municípios, que exerciam grande pluralidade de atividades com foco regional. Essas mulheres passaram a se organizar, a discutir aspectos de gestão de seus negócios, passaram a ter acesso mais facilitado a linhas de crédito e a refletir sobre a condição feminina.

A capacitação para uma organização coletiva do trabalho também é foco da Rede Industrial de Confecção Solidária (RICS), de Porto Alegre (RS), que reúne cerca de 40 mulheres. Juntas e com auto-gestão, eles reorientaram sua força produtiva, organizaram um modelo de negócio e conseguiram ampliar de R$ 150 para R$ 890 a renda média mensal de cada integrante. Ilma Borges, coordenadora da RICS e palestrante na Expo Brasil, lembra que o projeto encontrava, em seu início, um quadro de feminilização da pobreza na capital gaúcha. Ao mesmo tempo, surgiam formas espontâneas de trabalho no setor de confecções, mas que, por diversas razões, não sobreviviam. “Vimos então que precisávamos adotar a inserção contínua de renda e a capacitação para superar situações de vulnerabilidade social”, explica Ilma.

A RICS firmou contrato com um grande grupo hospitalar em Porto Alegre e passou a fornecer todas as roupas usadas dentro dos hospitais, numa média semanal de 5 mil peças. O contrato garante a demanda pela produção das mulheres nas confecções “Criamos o conceito da demanda socialmente orientada, pelo qual adotamos parceria entre organizações que nos davam apoio técnico e instituições que poderiam contar com produtos de empreendimentos solidários”, conta Ilma. O modelo de orientação da Rede permite sua reaplicação em qualquer localidade, credenciando a experiência ao status de tecnologia social.

Um novo olhar para a gestão do próprio negócio foi apresentado na Expo Brasil também a partir da experiência “Gerando Renda e Transformando Relações de Gênero”. “Os resultados que nós alcançamos podem parecer pequenos, se pensarmos na dimensão do Brasil, mas eles crescem muito se pensarmos no efeito multiplicador do trabalho”, comenta Cristina Simião, fundadora da Associação Difusora de Treinamentos e Projetos Pedagógicos (Aditepp), de Curitiba.

A experiência liderada pela Aditepp já capacitou 3.800 mulheres empreendedoras e 11.400 homens foram envolvidos nos eventos sobre economia familiar. O foco da Associação é a orientação para trabalhadores gerirem seus próprios negócios, a partir de treinamentos sobre administração financeira, melhoria de rendimentos, qualidade de vida e, muito enfaticamente, sobre as relações de gênero nas famílias. Reside aí a importância, para a Aditepp, de envolver especialmente maridos na capacitação das mulheres para a auto-gestão de negócios, dentro de uma perspectiva solidária.

Por Patricia Gil, da Fundação Banco do Brasil