Fonte: www.cliquesemiarido.org.br

Além das pastagens que se sucedem ao longo das margens da Estrada de Ferro Carajás, plantações de eucalipto são vastamente observadas quando a cidade maranhense de Açailândia se aproxima. Plantado em milhares de hectares pela Companhia Vale do Rio Doce (CVRD)- que controla os preços do minério de ferro na região -, o eucalipto, transformado em carvão vegetal, é usado para aquecer os altos-fornos siderúrgicos que transformam o minério de ferro em ferro-gusa.

Ao todo, o Pólo Siderúrgico de Carajás é composto por 14 usinas. Sete delas localizadas em Marabá, no Pará, e as outras sete no Maranhão, das quais cinco no Pequiá, distrito de Açailândia. Açailândia é uma cidade estratégica para a Companhia Vale do Rio Doce, gigante mundial do setor de mineração, cujo lucro superou R$ 10 bilhões no ano de 2006. Nesse município do extremo Oeste do Maranhão, a Estrada de Ferro Carajás – que escoa o minério de ferro extraído de Carajás – liga-se com o trecho da Ferrovia Norte-Sul, operado pela empresa por meio de uma concessão do governo federal, que, quando finalizada, irá ligar Goiânia (GO) a Belém (PA).

Raimundo Cruz Neto, agrônomo e cientista social, que também exerceu o cargo de vereador da cidade de Marabá (PA), entre os anos de 2001 e 2004, atesta que a produção de carvão teve início nas proximidades dos distritos industriais, em áreas de floresta adquiridas pelas siderúrgicas ou por terceiros que produziam e vendiam o carvão. “Posteriormente, se espalhou para um raio de até 200 km do eixo do corredor da Estrada de Ferro Carajás até atingir, hoje, o Cerrado a oeste e ao sul do Maranhão”, afirma. A área afetada por essa exploração é de até 200 mil hectares por ano.

Valdenes Rodrigues de Souza, 22, do assentamento Nova Conquista, na região de Açailândia, vive ao lado de mais 300 famílias. “Vivemos em meio aos eucaliptos. De Açailândia até o assentamento, é meia hora de paisagem de eucaliptos, de um lado e do outro”, descreve. O rapaz, que atualmente faz o curso de técnico agrícola pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e participa de reuniões periódicas sobre os desafios de desenvolver diversas culturas em meio aos eucaliptos, diz que o uso intensivo de agrotóxicos utilizado para manter esse tipo de plantio acaba afetando as famílias do seu assentamento.

“A plantação de eucalipto nos prejudica porque precisa de muitos agrotóxicos. Ela é pulverizada por meio de aviões. Há uns dois anos, a colheita do assentamento foi muito pouca devido aos agrotóxicos. Ocorreu uma chuva ácida que acabou com a plantação. Poucas pessoas conseguiram colher seus legumes”, conta Valdenes, explicando que as famílias de Nova Conquista plantam arroz, feijão, milho e macaxeira. “Nossa luta é contra o eucalipto, para que não se tire o sossego de tanta gente do assentamento”, conclui.

Insustentável – O Ministério do Meio Ambiente quer estimular o plantio de eucalipto por pequenos produtores no Leste do Pará e Oeste do Maranhão. O diretor do Programa Nacional de Florestas, Tasso Azevedo, disse, em maio, que a intenção do ministério é a de transformar a região de Carajás no segundo distrito florestal sustentável do país. O primeiro, na região da rodovia BR-163 (Cuiabá- Santarém), deve ser implementado ainda neste ano.

“O Sistema Florestal Brasileiro (SFB) apresentou para a região de Carajás uma proposta de um Distrito Florestal. Trata-se de uma área de 28 milhões de hectares. Seriam plantados um milhão de hectares de eucalipto para sustentar as usinas de produção de ferro-gusa nos pólos de Marabá e Açailândia, onde existem o maior número de siderúrgicas”, relata Raimundo.

Ele considera isso uma afronta, pois o BNDES se propõe a financiar as siderúrgicas, e as siderúrgicas, por sua vez, financiam os agricultores a produzir eucalipto para fornecer o carvão, e, ressalta, “além de substituir a floresta nativa por eucalipto, é utilizada grande quantidade de agrotóxicos”. Somado a isso, um pé de eucalipto chega a consumir, em média, 20 litros de água por dia, como comprovam estudos.

Como um alerta do que tende a se intensificar no Sudeste do Pará e no Oeste do Maranhão, Ivonete Gonçalves, coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (Cepedes) relata as implicações práticas da produção de eucalipto na vida do trabalhador rural.

Informa que no Sul baiano, as “papeleiras” fazem um contrato com a pessoa, fornecem as mudas, fornecem os venenos, fornecem os técnicos e a pessoa só pode vender para a empresa com a qual assinou o contrato. “Isso não é fomentar. Esses trabalhadores acabam ficando no prejuízo, porque para voltar a ter outro tipo de cultura nessa terra demora um tempo muito grande. É um prejuízo tanto ambiental quanto cultural, porque as pessoas saem de suas cidades, ficam pulando de município em município procurando o que fazer”, denuncia Ivonete. De acordo com a pesquisadora, entre os anos de 1996 e 2000, mais de 7 mil famílias deixaram o campo em Eunápolis, na Bahia, devido a expansão dos eucaliptais. Dos 21 municípios do Sul da Bahia, apenas um não possui plantação de eucaliptos.

Eduardo Sales de Lima, de Brasília (DF). Publicada em Brasil de Fato, Ano 5, n° 226