Fonte: Rosângela Alves de Oliveira*

“…agora são os países desenvolvidos, aprendendo com os países em desenvolvimento, como se desenvolver”. (participante do congresso)

O 1° Congresso Alemão de Economia Solidária aconteceu nos dias 24 – 26 de novembro de 2006, em Berlim, com o tema: Economia Solidária no capitalismo globalizado – que economia nós queremos? O congresso foi promovido pela Bewegungsakademie e a Universidade Técnica de Berlim com a participação e apoio de várias organizações entre elas: ATTAC, DGB (central sindical alemã) e a Rosa-Luxemburg-Stiftung. Estavam presentes representantes de vários países entre eles: Brasil, Venezuela, Argentina, Índia, Franca, Itália, Bélgica, Canadá, Espanha e alguns países da África. Segundo a coordenação do evento, a meta inicial de 500 participantes foi considerada ousada, porém, compareceram 1.400 participantes. Um sucesso total! Durante o congresso aconteceram 150 atividades (Wolkshops, Foren e Podien), feiras com diversas experiências, livros e vários programas culturais. É importante destacar que antes do congresso foram realizadas palestras em mais de 20 cidades da Alemanha com alguns convidados. Gostaria de partilhar com as companheiras e companheiros do FBES a participação do Brasil nesse processo.

O “Info-Tour Solidarische Ökonomie”, atividade anterior ao congresso do Brasil, participou pelo Brasil, o Paul Singer e eu (Rosa). Como o Prof. Singer só chegou no dia 22.11., ele fez uma palestra na Universidade de Kassel e outra na Komuna Niederkaufungen. Eu fiz seis atividades nas cidades de Munique (duas), Augsburg (cidade de nascimento de Bertolt Brecht), Mainz, Saarbrücken, Trier (onde nasceu o Karl Marx) e Berlim. Centrei minha fala na experiência do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, partindo de uma das experiências na qual participei (filme: Feira Agroecologica da Várzea Paraibana) até a organização e estrutura atual do Fórum, incluindo nossas ações no âmbito da política pública, de forma especial, a SENAES. Na nossa opinião, um dos grandes desafios da Alemanha no campo da Economia Solidária é a articulação entre os diversos empreendimentos e atores. Existem muitas ações (e o congresso revelou isto), mas ainda de forma um tanto isoladas. Por onde eu passei, me chamou a atenção as perguntas ligadas a seguridade (aposentadoria, direitos trabalhistas, etc), porém, o mais freqüente era ouvir comentários de que a experiência brasileira era muito interessante, mas na Alemanha isso não seria possível visto que, as pessoas não eram assim tão pobres. Como boa militante (risos) aproveitei para provocá-los com uma pergunta: vocês estão esperando chegar a situação dos pobres da América Latina e da África para reagir?!!!

Durante o congresso, o Prof. Singer foi muito demandado pelos participantes, com muitas atividades nos pódiuns, entrevistas, etc. Sempre com o seu jeitinho carinhoso, atencioso seduziu muita gente. Fez uma fala politicamente correta, destacando FBES e SENAES. Eu juntamente com uma colega da Argentina, Viviana Uriona, e outra da Alemanha, Kristina Bayer, apresentamos um Wolkshop sobre “Economia Solidária e os Movimentos Sociais na América Latina”. A nossa expectativa era de 30 pessoas, compareceram cerca de 70 participantes, todos com muito entusiasmo e interesse no tema.

Gostaria de compartilhar algumas impressões gerais. O Brasil continua sendo um país muito querido e respeitado pelos alemães. A nossa experiência se destaca principalmente pela diversidade e pelo poder de articulação que temos. As vezes precisamos ter cuidado para não parecermos arrogantes diante dos outros. Acho que este congresso veio na hora certa, pois, a Alemanha passa por mudanças significativas, com reformas políticas, encolhimento do Estado de Bem Estar Social, etc. Em relação à esquerda alemã, a situação da Economia Solidária é muito parecida com o Brasil dos anos 1980/1990. O olhar de desconfiança é muito grande – será isto mais uma enganação capitalista ou a Economia Solidária é realmente um instrumento de mudança social… Na verdade a grande bandeira de luta é o Grundeinkommen (salário básico). Eles analisam que a Alemanha é detentora de uma riqueza suficiente para que todas as pessoas recebam uma renda independente de estar ou não trabalhando. Em relação aos partidos políticos, aconteceu no congresso um Wolkshop com a presença do Linkspartei (Partido da Esquerda) e o Partido Verde. Aconteceu no dia 29.11. uma reunião com o Partido Social Democrata. Enfim, está pautada a Economia Solidária na Alemanha. Acreditamos que esse esforço irá gerar novos frutos.

Para terminar, é importante dizer que o congresso foi marcado pelo solidariedade e pelo trabalho voluntário. Muitas pessoas abriram suas casas para acolher os congressitas, muitas vezes desconhecidos, mas unidos pela causa. No caso das palestras que antecedeu o congresso, também não foi diferente. Aproveito para agradecer a todas as pessoas que nos receberam em suas casas, numa demonstração de muito carinho e atenção e de forma especial, aos dois jovens companheiros militantes Susanne Rodemann e ao Julian Bank, representantes da Bewegungsakademie pela companhia cuidadosa durante nossas visitas.

* Rosângela Alves de Oliveira é agente da Caritas Brasileira, participante do FEES-PB, doutoranda na Universidade de Kassel – Alemanha e bolsista da Ford Foundation.