Fonte: letraviva@listasbrasil.org, por Secretaria Nacional do MST

No último dia 8 de março, 2 mil mulheres da Via Campesina Brasil ocuparam uma área da empresa Aracruz Celulose em Barra do Ribeiro (RS). A data e o lugar – sede da II Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural da FAO – foram simbolicamente escolhidos para demonstrar a indignação dessas camponesas com a mercantilização da natureza, em curso hoje no mundo.

A terra, as águas, as sementes, o ar e as matas são considerados hoje recursos que devem ser explorados conforme os interesses econômicos de grandes empresas multinacionais. Sob o argumento de reflorestamento, criaram-se verdadeiros desertos verdes de produção de madeira para fábricas de celulose. O eucalipto é a principal espécie dessa estratégia e danifica o solo de forma irreparável: uma vez plantado, não é possível retomar a fertilidade da terra e seus minerais. Além disso, as raízes do eucalipto penetram nos lençóis freáticos, prejudicando o abastecimento de água das regiões. Cada pé de eucalipto é capaz de consumir 30 litros de água por dia. A maior proprietária nessa empreitada é a Aracruz Celulose, que tem 250 mil hectares plantados em terras próprias, 50 mil só no Rio Grande do Sul. Suas fábricas produzem 2,4 milhões de toneladas de celulose branqueada por ano, gerando contaminação no ar e na água, além e prejudicar a saúde humana.

Apesar da ação realizada na última semana ter obtido espaço na mídia, as razões colocadas acima, que levaram as mulheres da Via Campesina Brasil a ocupar a empresa, não tiveram espaço. Apenas a Aracruz Celulose pode colocar suas opiniões, transformado uma ação política em um drama pessoal da pesquisadora responsável pelas mudas de eucalipto. Funcionários foram entrevistados lamentando o ocorrido, mas em nenhum momento foi dito que a Aracruz gera apenas um emprego a cada 185 hectares plantados, enquanto a pequena propriedade rural gera um emprego por hectare.

No Espírito Santo e na Bahia, lugares em que a empresa está presente, pelo menos 88 mil postos de trabalho vão sumir esse ano por conta de um empréstimo de 297 mil reais do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Participação PIS/Pasep, para plantios de eucalipto pela empresa. No total, a área com financiamento será de 90.806 hectares. O prazo de carência desses créditos do BNDES é de 21 meses. Só a partir daí começam os pagamentos do empréstimo e os prazos das amortizações chegam a 84 meses. Tudo isso a juros de incríveis 2% ao ano! Já as taxas de juros praticadas no Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf) variam até 8,75% ao ano. Nos últimos três anos, a empresa recebeu 2 bilhões de reais dos cofres públicos. O dinheiro, conforme demonstra o balanço de 2005, foi 56% destinado ao exterior, onde se concentram boa parte de seus proprietários: a empresa noruguesa Lorenz detém 28%, (cujo maior acionista é o cunhado do Rei da Noruega). Outros 28% são do Banco Safra, do capital internacional com sede em Mônaco, 28% da Votorantim, e 12,5% do BNDES. A Souza Cruz (grupo British American Tobacco), também tem acionistas, mas em menor percentual.

“Poderíamos ficar orgulhosos porque a Aracruz pertence a um que norueguês que tem êxito no exterior e ganha muito dinheiro. Mas não. Não estamos orgulhosos. A Aracruz está roubando ou ocupando território de indígenas e isso criou uma reação forte no nosso povo. Tem muita floresta na Noruega, como também na Suécia e Finlândia, que formam a Escandinávia, no norte da Europa, onde foi fundida a empresa Stora Enso, que também produz celulose no Brasil. Porque não produzem a celulose lá na Europa? Para poder usar a madeira das árvores nativas da Escandinávia é preciso deixar crescer entre 10 e 30 anos. Em vez disso, o eucalipto já pode ser usado depois de 7 anos. E é muito mais barato produzir no Brasil, a mão-de-obra sendo mais barata”, denuncia Ingeborg Tangeraas, ativista norueguesa da organização NBS (Norwegian Farmers and Smallholders Union).

A coroa sueca também tinha ações, mas vendeu em janeiro, depois do repudio da população à ação realizada pela empresa contra o povo Guarani no Espírito Santo. Cerca de 120 homens da Polícia Federal utilizaram helicópteros, bombas, armas e munições, além de máquinas da própria Aracruz Celulose, para derrubar plantações e casas e expulsar 50 guaranis de uma terra que lhes pertence. A área, invadida ilegalmente pela empresa para plantar eucaliptos, está ainda em discussão no poder público. Isso não foi suficiente para evitar a prisão de oito de indígenas e dezenas de feridos.

Em uma conferência mundial que discutia Reforma Agrária, a ação realizada pelas mulheres da Via Campesina Brasil coloca em questão por que um governo que quer acabar com a fome continua patrocinando e legitimando companhias como essa, que apenas multiplicam o deserto verde, causam desemprego e ainda violentam o povo brasileiro. Não somos contra a pesquisa. Pelo contrário, queremos pesquisar cada vez mais. Mas pesquisar soluções para os problemas do povo, e não apenas ampliar a produtividade para aumentar o lucro das multinacionais. Os que inventaram a bomba atômica também eram grandes pesquisadores. O investimento nestas companhias, nove vezes superior ao empregado na agricultura familiar, só pode nos levar a uma conclusão: a idéia é que dentro de 20 anos a base da alimentar do brasileiro seja a celulose!