Autora: Rosemary Gomes (rgomes@fase.org.br)

Acredito que seja legal passar informações sobre um evento que acontecerá em julho na França e onde uma parcelinha do nosso movimento de economia solidária irá, de certa informa, nos representar junto à sociedade francesa, pelo menos a parcela interessada em Economia Social e Solidária. Antes aproveito para situar a maioria com um pouco do histórico desse convênio.

Me foi dada a tarefa de coordenar, deste 2003, o Eixo Economia Solidária, representando a ABONG no convênio assinado entre Coordination SUD (associação francesa de ongs que atuam no Sul) e a ABONG (associação brasileira de Ongs). Então deste 2003, dentro do espírito do FSM, as duas associações procuram realizar encontros, eventos e trocas dentro de 4 grandes temas: Uma nova Urbanidade, uma nova Ruralidade, uma nova Economia e uma nova Cooperação Internacional.

Esses temas foram desdobrados em vários sub-temas de trabalho ao longo desses anos e sempre chamando atenção de que o objetivo maior do convênio seria encontrar interfaces e produzir sinergias (isso não significa que os sub-temas definidos são os mais importantes para o desenvolvimento nacional ou para temática, apenas que são onde encontramos interesses dos dois lados do oceano e identificamos possibilidades para ampliação de trocas e ferramentas para enfrentar os desafios comuns.

Definidos os sub-temas escolhemos organizações dispostas a trabalhar na coordenação de cada sub-tema sem receberem remuneração direta para seus trabalhos institucionais, visto que os recursos são escassos e somente destinados a articulação bilateral. Ou seja, definido cada sub-tema, ele é coordenado por uma ONG de cada lado (sob minha coordenação), mas que se preocupem em ampliar a participação de outras associadas e movimentos afins nos seus respectivos países. Nunca aprovado (pelo menos do lado Brasil) um projeto meramente institucional, o lema é criar uma plataforma franco-brasileira.

Pauline Grosso foi um(a) dos(as) idealizadores do projeto inicial desse convênio indo depois para um programa especifico na Embaixada da França no Rio. O projeto guarda chuva foi amplo o bastante para que fôssemos desenhando aos poucos a metodologia de trabalho bilateral, coisa que pretendo me deter ao final do convênio com a proposta de um estudo sobre a construção de uma metodologia de plataformas bilaterais. Acredito que posso reunir uma série de elementos interessantes de análise sobre trabalho em redes, parcerias entre países e culturas políticas tão distintas: elementos de solidariedade, dificuldades com a comunicação e o idioma… de repente se torna parte de uma tese sobre cooperação internacional, alter-mundialismo, se eu pegar só as partes positivas ou outros temas se eu for me deter sobre outros elementos desagradáveis da relativização constante .

Voltando ao que interessa: no convênio tivemos momentos super! (como dizem os franceses): seminário realizado em São Paulo pelo Kairós sobre Educação para Consumo – que reuniu gente das mais diversas tribos; Seminário sobre o Protagonismo das Mulheres na Economia Solidária pelo CEDAC com participação na metodologia do PACS da Lua Nova que ocorreu no Rio e que trouxe mulheres trabalhadoras da cidade e do campo e diversas organizações de assesoria; o seminário com SENAES e rede de gestores públicos de Economia Solidária em Brasilia sobre as politicas públicas de ES na França e no Brasil, seminários sobre Comércio Ético e Solidário em conjunto com o FACES do Brasil em várias partes do Brasil, etc… desculpem, mas não dá pra citar todos os eventos e oficinas neste artigo.

Evento na França – julho de 2005

Nesse momento, na França, estão se realizando uma série imensa de shows, exposições, eventos de multimídia etc… dentro do que é chamado Ano Brasil na França 2005. Para este evento o convênio foi chamado a realizar uma atividade especifica para se apresentar. Então, somando a outras atividades financiadas pelo comitê bilateral Ano Brasil teremos 4 mesas durante 2 dias (12 e 13 de julho) e a mesa do eixo Economia Solidária será sobre a potencialidade da Economia Solidária para a Soberania e Segurança Alimentar.

Parêntese: esse será o único item social de um ano que é normalmente somente cultural. A cada ano o governo francês escolhe um país para apresentar sua diversidade cultural (esportes, música, literatura, artes etc..). O Governo Brasileiro solicitou que se ampliasse este evento com um elemento social, e como o Ministério de Relações Exteriores considerou o convênio já existente importante para as relações entre os dois países, ficou a cargo da ABONG-SUD realizar dois dias de debates sobre os temas do convênio.

Poderíamos ter eleito vários temas, porém o que deve maior interface de interesse entre os coordenadores do Eixo Economia Solidária, levando em consideração o momento político, a relevância de interfaces com outros eixos e a importância que vem ganhando a possibilidade de inter-relaçoes entre os movimentos da ES, com movimentos agro-camponeses, ambientalistas e urbanos foi, por decisão minha e de Maria Angert (coordenadora do lado francês em Paris), e contando com concordância das direções de SUD e ABONG, a temática A Potencialidade da Economia Solidária para a Soberania e Segurança Alimentar.

Essa mesa será realizada na sede do Fórum de Desenvolvimento Econômico de Paris, contando com a presença de: Euclides Mance, Chico Menezes (Ibase),Frei Betto, Lucia Marina (direção nacional do MST), Sandra Magalhães (Palmas),e vários atores franceses entre eles Federação Artesãos do Mundo e Confederação Paysannes (agricultores franceses), CFSI (Campanha Alimenterre); GRET , etc…

Euclides, Sandra e eu estaremos levando elementos sobre essa relação entre a Economia Solidária e a Soberania e Segurança Alimentar no âmbito dos movimentos e políticas públicas nacional, regional e locais. Frei Beto, que já estará deste junho na França a convite de outras atividades de literatura, foi incluído pelo seu papel na assessoria especial no programa Fome Zero; e chamamos o MST pelas sua bandeiras dentro da Via Campesina pela Soberania Alimentar nos países. Obviamente que a abrangência nos permitirá a interface com o eixo rural e com o eixo urbano além da temática da cooperação internacional, portanto não foi à toa essa escolha. Entendo Soberania Alimentar como um tema caro a diversos movimentos sociais e a economia solidária tem um papel importante na garantia de acesso a compras governamentais dos pequenos agricultores e na reação contra a fome nas grandes cidades.

Nosso eixo propôs ao convênio que o coquetel de encerramento do dia 13/07, onde estarão presentes representantes dos dois países, seja realizado pelas mulheres da Economia Solidária francesa, com a participação de Gisele (trabalhadora do grupo Oficina do Pão integrante da AGP-Assoc. Grupos de Produção – assessorados pelo CEDAC), que já teve oportunidade de intercâmbios com as trabalhadoras francesas quando essas estiveram no Brasil

As coordenadoras (Maria e eu) estamos responsáveis pelo trabalho de articular os fornecedores de produtos orgânicos franceses com as francesas do grupo Femmes Active e de Femmes de Marseilles. Isso por si só já é uma ação concreta de novas interfaces. Articulamos por aqui também que os integrantes brasileiros da missão (incluído aqui os que estão indo pelos outros eixos, em especial o eixo rural) estarão levando sucos de frutas da Amazônia, cachaça artesanal do MST, cachaça orgânica da FETRAF e outros produtos da agricultura familiar brasileira das suas respectivas regiões (dentro da limitação do peso de suas bagagens pessoais) para serem servidos sucos brasileiros e caipirinha no coquetel. Também recebemos a proposta de organizar junto com nossos parceiros franceses de comércio justo um Estande com alguns produtos brasileiros. Foi determinado que os carros chefes serão sucos e artesanato utilitário.

Como serão apenas dois dias e dentro de um lugar suntuoso – ao lado dos Arcos do Triunfo – estamos tentando colocar a criatividade brasileira pra trabalhar e contornar as limitações típicas de uma mini-mostra da diversidade da agricultura familiar e artesanal brasileira. Já contamos com a possibilidade do convênio (pelo lado ABONG) estar levando também 2 responsáveis pelo Estande: o grupo Art-Gravatá (brinquedos pedagógicos / Pernambuco) e Articulação para Comercialização de Frutas da Amazônia – Baixo Tocantins / Pará) e eles estarão mostrando não somente seus produtos como também produtos de outros grupos brasileiros como Fetraf, MST, Onda Solidária, DEVAS-Maré; AGP; Palmas; entre outras, sempre maximizando e fazendo interface com os integrantes que estão indo pelos outros eixos, brasileiros que estarão em paris nessa época e trabalham com a economia solidária, etc.

Quais os critérios de escolha desses grupos? Estabeleci com Abong que deveriam estar participando ativamente de processos locais de desenvolvimento comunitário, serem assessorados por associadas da ABONG; estarem em interfaces com grupos franceses e essa ida permitisse concretizar relações comerciais de longo termo. E também que fossem grupos com atuação em mercados nacionais, não somente de exportação, e estivessem nos movimentos de economia solidária e/ou no comércio justo. Poderia ter elecando centenas de outros critérios e teríamos centenas de outros grupos talvez até mais representativos, mas esses eram os 3 critérios que respeitavam a especificidade do convênio e a interface franco-brasileira. As associadas da ABONG que foram referência nesse momento foram a Visão Mundial e FASE Nacional. Os dois grupos produtivos se inserem em projetos pilotos que estão sendo acompanhados como modelos de sistema de Comércio Ético e Solidário no Brasil, além de que as regiões norte e nordeste foram previlegiadas por entendermos que no eixo rural do convênio houve maior concentração de organizações do Sul e Sudeste, garantindo assim também a diversidade territorial. O centro-oeste infelizmente ainda tem poucos participantes (acho que em termos de ONGs asssociadas da ABONG ainda não há nenhuma).

Momento de lançamento de produtos desse convênio: Está previsto (ainda a ser confirmado) 1) o lançamento do manual para Consumo Responsável França-Brasil que conta com o trabalho direto de Kairós e AdM, mas que para ser publicado receberá apoio financeiro de várias estruturas governamentais na França e no Brasil (entre elas MMA, SENAES etc..); 2) lançamento de um produto financeiro que foi estabelecido entre Finasol-ABDE-AB-CRED; 3) um contrato comercial de longo termo entre as lojas de AdM / Solidarmonde (exportadora francesa) e Art Gravatá / Pernambuco. As relações comerciais e de parceria (itens 2 e 3) extrapolam e não são da responsabilidade do convênio.

Outras atividades no Ano Brasil na França – Julho de 2005

Também foram convidados pelo Movimento Outres Brasilis (organização francesa) para participar dos debates, após exibição de vídeos de experiências de Economia Solidária com interfaces em Gênero, Consumo no Bairro, Meio Ambiente, Redes no FSM, e Reforma Agrária/DESC, as seguintes pessoas: Fabíola Zerbini (Kairós), Gisele (Oficina da Pão/ CEDAC), Sandra (Palmas), Rose (FASE) e Lucia Marina (MST).

Minha intenção é trazer, logo que sejam concluídos os vários resultados desse convênio, todos os elementos de conteúdo (resultado dos estudos que será realizado entre IBASE-CFSI sobre a realidade alimentar dos pobres nas cidades), estudo sobre a cadeia do frango (realizado pelo DESER), manual de educação para Consumo responsável para disseminar as informações colhidas no evento. Sempre foi intenção da ABONG que os resultados dessas parcerias com a França, realizadas nos últimos anos, sejam apropriados não somente por suas associadas como também para o conjunto dos movimentos sociais e redes.

Para mais completas informações sobre o convênio visitem a página http://www.abong.org.br e procurem na área de cooperação internacional. Lá se encontram relatórios dos diversos seminários e eventos realizados no Brasil e na França, dezenas de fichas-resumo de atores, redes, conceitos e experiências etc…

O programa completo do evento já saiu! Ele pode ser obtido da secretaria executiva do FBES.